Da violência banal à tragédia: o machismo que a sociedade admite, até quando?
Duda Quiroga – Diretora do Sinpro-Rio, Secretária Sindical PT RJ, CUT Brasil
É inadmissível que, em pleno século XXI, ainda nos deparemos com situações tão brutais de violência contra mulheres e meninas. Isso se torna ainda mais grave quando lembramos que o país lançou, em agosto de 2023, o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, reconhecendo a urgência de proteger a vida das mulheres e enfrentar essa realidade.
Mesmo assim, seguimos convivendo com crimes que revelam a profundidade do machismo na sociedade brasileira.
Jovens, alguns maiores de idade e até um menor, se acham no direito de estuprar uma estudante. Um crime que destrói vidas e deixa marcas físicas e psicológicas profundas, muitas vezes irreparáveis.
Quando essa jovem encontra coragem para denunciar e o caso se torna público, descobrimos algo ainda mais grave: ela não foi a primeira.
Se perguntarmos a professores e pessoas que conviviam com esses rapazes, muitas vezes ouvimos: “Eles pareciam normais”. Mas também surgem relatos que deveriam nos fazer refletir: havia sinais. Problemas de comportamento, atitudes agressivas, desrespeito cotidiano.
O problema é que naturalizamos tanto essas agressões do dia a dia que acabamos abrindo caminho para brutalidades maiores.
Como escreveu a filósofa Simone de Beauvoir, “basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. A frase ajuda a lembrar que o ataque às mulheres não é um desvio isolado, mas parte de uma estrutura que insiste em recolocá-las em posição de subordinação.
Essa reflexão também precisa alcançar o papel da grande imprensa e dos meios de comunicação, que operam a partir de concessões públicas e têm responsabilidade social.
Seguimos convivendo com episódios absurdos. Em novembro do ano passado, um ataque dentro do CEFET-RJ resultou no assassinato da professora Allane de Souza Pedrotti Matos e da psicóloga Layse Costa Pinheiro, mortas no mesmo episódio de violência ocorrido dentro da instituição, ironicamente próximo ao Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher.
Agora nos deparamos com o estupro de uma estudante do ensino médio, que carrega marcas físicas e psicológicas incontestáveis.
Enquanto isso, somos obrigados a assistir na televisão, tratado como “treta” ou entretenimento, um homem berrando com uma mulher e avançando contra ela, uma situação evidente de violência psicológica, sem que haja intervenção imediata.
Isso não é entretenimento. É violência.
O programa poderia ter interrompido e feito um posicionamento público. Já aconteceu antes. No Big Brother Brasil, quando um participante foi racista, a produção interrompeu o programa e exibiu uma campanha educativa contra o racismo.
Naquele momento, corretamente, o racismo não foi tolerado.
Mas por que admitir a violência contra a mulher?
Por que admitir a misoginia?
É justamente essa tolerância, explícita ou silenciosa, à misoginia que permite que agressões se acumulem até se transformarem em tragédias.
O Rio de Janeiro, infelizmente, tem sido um exemplo preocupante pela quantidade de ocorrências recentes.
Mas tragédias também precisam produzir respostas. Os casos recentes, o ataque que vitimou Allane de Souza Pedrotti Matos e Layse Costa Pinheiro e o estupro dessa estudante, precisam marcar um ponto de inflexão: punição aos responsáveis, reparação possível às vítimas e políticas efetivas de proteção e acolhimento para mulheres e crianças.
Porque a violência contra mulheres não é normal, não é inevitável e não pode ser tratada como parte da paisagem social.
“Não é não”.
E é preciso afirmar isso todos os dias, na escola, na família, na política, na mídia e nas relações cotidianas. Nenhuma idade, religião, classe social, raça ou orientação sexual pode servir de desculpa para o machismo e a misoginia.
Quando a sociedade tolera a violência contra mulheres, ela autoriza que novas tragédias aconteçam. Combatê-la não é apenas uma pauta das mulheres, é de uma escolha civilizatória.

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Este post foi publicado em 09/03/2026 às 17:47 dentro da(s) categoria(s): Notícias.
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