O último dia da programação reuniu professoras, pesquisadoras e a categoria para debater leitura na infância e saúde mental no magistério
Sob uma chuva inesperada que caiu no Rio de Janeiro no sábado, 15, a Feira de Livros do Sinpro-Rio chegou ao seu último dia. As condições climáticas impossibilitaram a montagem da Feira de Editoras na Praça da Professora e do Professor, mas as atividades no Espaço Paulo Freire foram mantidas conforme previsto na programação. Duas mesas de debate fecharam a programação: uma sobre o poder transformador da literatura infantil, outra sobre o adoecimento mental dos professores; tema cada vez mais urgente para a categoria.
Três Mulheres, Muitas Histórias: a leitura que transforma infâncias
A primeira mesa da manhã reuniu a ilustradora e artista visual Juliana Oliveira, a escritora Maria Chocolate, e a professora, poetisa e psicopedagoga Duda Quiroga, mediada pela professora e diretora do Sinpro-Rio Andrea Cristina Teodoro. As quatro mulheres, ligadas pelo colégio Dom Quixote, onde algumas estudaram e outras trabalharam, compartilharam trajetórias de encantamento pela leitura e pela literatura infantil.
Duda Quiroga, que também é dirigente sindical, abriu destacando a singularidade da mediação de leitura: “As outras artes, todas as crianças já começam a ter contato sozinhas. A leitura é a única arte que o primeiro contato é necessariamente mediado, porque a gente ainda não lê. Então, o mediador de leitura é uma pessoa muito importante nessa trajetória.” Duda apresentou ainda seu livro inédito “Minha Mãe é Mágica”, ilustrado por Juliana Oliveira, que trata da introdução alimentar a partir do olhar curioso de um bebê.
Juliana Oliveira, com 20 livros ilustrados, trouxe uma frase de Einstein: “Se você quer que as crianças sejam inteligentes, leia contos de fadas para elas. Se você quiser que elas sejam ainda mais inteligentes, leia mais contos de fadas.” A ilustradora, que usa aquarela como técnica principal, defendeu que a mancha, geralmente vista como algo negativo, pode ser assumida como expressão: “A aquarela me ensinou a aceitar as manchas.” Sobre o papel da literatura, afirmou: “A literatura infantil não ensina a criança que não existe a treva. Ela ensina a criança a passar pela treva.”
Maria Chocolate, arte-educadora de Saracuruna, na Baixada Fluminense, emocionou o público com sua história de vida; da infância mineira sem acesso a livros à fundação da Biblioteca Comunitária Mães Mulheres Amorosas Necessitadas de Não Pegar em Sonhos, no quintal de sua casa, há 20 anos. Chocolate, autora de “A Menina do Vestido Amarelo”, relatou que aprendeu a ler no quintal de uma vizinha e que as histórias ouvidas na infância a salvavam da fome: “Era nas horas mais tristes da minha vida, que era a hora de dormir, que o livro me salvava. Porque, muitas das vezes, a fome era forte.” Encerrou com uma afirmação potente: “A mesma dor que dói na cor negra, na cor branca, amarela, verde, dói em todas as cores.” E citou Antônio Cândido: “Literatura como um direito humano. Esse objeto é a melhor arma que a gente tem. Na mão de cada criança tem que ter um livro.”
Assista à palestra completa “Três Mulheres, Muitas Histórias: Literatura Infantil que Transforma Infâncias e Territórios” no canal do Sinpro-Rio no YouTube:
Adoecimento Mental no Magistério: “os professores que adoecem são os que se importam”
A mesa de encerramento trouxe a psicóloga e doutora em Clínica e Subjetividade Samantha Carvalho Felício, autora do livro “A Produção de Subjetividade Docente e o Adoecimento de Professores”, e a professora e pesquisadora da UFF Alcilene Azevedo das Chagas, mediadas pelo secretário-geral do Sinpro-Rio, Afonso Celso Teixeira, autor do romance “O Mantra” sobre um professor que adoece mentalmente pela jornada exaustiva de trabalho.
Alcilene apresentou, pela primeira vez, dados de sua pesquisa de mestrado sobre flexibilização e intensificação do trabalho docente nas escolas privadas do Rio de Janeiro, vinculada ao Laboratório de Investigação Estado, Poder e Educação (LIEPE). A pesquisa, realizada entre outubro de 2024 e junho de 2025 com 1.369 respondentes, revelou que mais de 60% dos docentes declararam se sentir adoecidos pelo trabalho. Um dado especialmente grave: na educação privada, 59% dos professores trabalham entre 10 e 30 horas semanais — menos horas que a rede pública, porém com maior intensificação via plataformas digitais. “O trabalho que a gente faz na escola é dar aula. O trabalho que a gente faz em casa é outro completamente diferente, que a gente não é remunerado para isso”, afirmou Afonso, destacando que o trabalho extraclasse não é remunerado nas escolas privadas.
Samantha Felício trouxe dados alarmantes: “A segunda categoria profissional que mais apresenta questões de saúde mental são os professores, perdendo apenas para policiais militares.” A psicóloga, com 20 anos de atuação na Secretaria Municipal de Educação, denunciou a naturalização do sofrimento docente e a individualização do problema: “Esse processo de individualização das questões é um processo extremamente eficiente que tem a ver com o nosso funcionamento capitalista. As questões não são sociais, não são políticas, são suas. Você que tem depressão, você que tem burnout, você que não aguentou.”
Samantha também apresentou uma constatação que reverberou no auditório: “Os professores que adoecem são os que se importam. São os que estão ali vivendo e se importando com a educação.” Segundo ela, o adoecimento é um analisador de algo maior; o ataque político ao lugar do professor como agente de transformação social. “Existe uma demanda de ataque à educação. São vetores de mudança e transformação social. Então, não se quer isso, se quer que as coisas continuem do mesmo jeito.”
Afonso encerrou ressaltando que o Sindicato insiste na pauta da remuneração do trabalho extraclasse e anunciou a assembleia da categoria marcada para aquele mesmo dia, às 14h, em meio à campanha salarial das escolas privadas. “Vocês estão tratando muito mal seus professores e professoras”, alertou.
Assista à palestra completa “Adoecimento Mental no Magistério: Saúde e Trabalho Docente” no canal do Sinpro-Rio no YouTube:
Feira de Livros encerra sua primeira edição
Apesar da chuva que impossibilitou a montagem dos estandes na Praça da Professora e do Professor, a primeira Feira de Livros do Sinpro-Rio cumpriu sua programação de debates no Espaço Paulo Freire ao longo de três dias.
Foram seis palestras com participação de deputados, pesquisadores, escritores, professoras e artistas, além dos estantes das editoras Nau, Contracapa, Multifoco, Expressão Popular, Mauad, Rubra, Livraria NPC Antonio Gramsci, 7 Letras, Pallas e Ofício das Letras.
No canal do Sinpro-Rio no YouTube também é possível conferir uma série de entrevistas realizadas por Afonso Celso Teixeira, diretor do Sinpro-Rio, com autores e diretoras que passaram pela Feira das Editoras.
A Feira de Livros nasceu como uma iniciativa da Secretaria de Educação e Cultura do sindicato para ocupar o espaço público com cultura e conhecimento, reafirmando o compromisso do Sinpro-Rio com a educação, a democracia e os direitos dos profissionais do magistério. Nos vemos em 2027!
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Este post foi publicado em
15/08/2026 às
15:00
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