Escritoras, antropóloga e jornalista debateram violência de gênero, literatura feminina e cultura suburbana em mesas mediadas por diretoras e diretores do sindicato
O segundo dia da Feira de Livros do Sinpro-Rio, nesta sexta-feira (14), reuniu dois debates que atravessaram gênero, literatura e identidade cultural carioca. No Espaço Paulo Freire, as mesas “Não é Mimimi: Crônicas” e “Pluridentidades Culturais Cariocas” mobilizaram um público atento, em grande parte professores e professoras da rede privada, que lotaram o auditório para discutir desde microagressões cotidianas até a cultura suburbana do Rio de Janeiro. As palestras ficaram gravadas e estão disponíveis no canal do Sinpro-Rio no YouTube.
“Não é Mimimi”: quando a dor das mulheres é desqualificada
A primeira palestra da noite trouxe as escritoras e professoras Cíntia Barreto, doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ, e Marta Rodrigues, escritora, professora e pesquisadora, mediada por Duda Quiroga, professora, poetisa, contadora de histórias e integrante do Sinpro-Rio. As autoras fazem parte da coletânea “Não é Mimimi: Crônicas”, lançada pela editora Vermelho Marinho, com cinco autoras: Cíntia Barreto, Clarice Campos, Lilian Poli, Marta Rodrigues e Virginia Moraes.
Marta Rodrigues abriu a discussão com números que dimensionam a violência: em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde a tipificação da lei do feminicídio, em 2015, ao menos 13.703 mulheres já foram assassinadas apenas por serem mulheres. A professora citou a atriz Zezé Mota para definir o conceito central do debate: “Mimimi é o nome dado à dor que dói no outro. É atestar que você ainda não teve capacidade nem empatia para entender.”
Marta também relatou como o termo “mimimi” foi usado por autoridades para desqualificar reivindicações femininas, citando declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia e em debate eleitoral com Simone Tebet. “Quando o poder legitima uma violência como essa, ele sanciona que a sociedade, de modo geral, possa fazer o mesmo”, afirmou.
Cíntia Barreto explicou a trajetória que a levou a organizar o livro, desde sua pesquisa no Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM) da UFRJ até a criação do selo de autoria feminina na editora Vermelho Marinho. Um dos eixos do debate foi a literatura infantil e o silenciamento feminino desde a infância. Cíntia mostrou como Chapeuzinho Vermelho é apresentada, na versão de Charles Perrault, como “a menina mais bonita que poderia haver”, e nos Irmãos Grimm como “uma menininha encantadora”; uma personagem sempre valorizada pela beleza e submissão. Em contraponto, apresentou seu livro “Fala, Menina”, cuja protagonista é apresentada não pela aparência, mas pela voz: “Era uma vez uma menina que tinha uma boca do tamanho do mundo.”
A mediadora, Duda Quiroga lembrou de um caso de assédio que sofreu no ambiente de trabalho enquanto estava grávida e destacou a importância da cartilha de prevenção ao assédio produzida pelo Sinpro-Rio. Anunciou ainda a intenção de realizar um novo debate dentro dos 21 dias de ativismo, que vão de 20 de novembro a 10 de dezembro.
Assista à palestra completa “Não é Mimimi: Crônicas” no canal do Sinpro-Rio no YouTube:
Pluridentidades Culturais Cariocas: o subúrbio como centro de produção
A segunda mesa da noite foi mediada pelo professor Luiz Cláudio Espírito Santo, diretor do Sinpro-Rio, e trouxe a antropóloga Sandra de Sá Carneiro, professora e pesquisadora da UERJ, e o escritor e jornalista Marcelo Moutinho, vencedor do Prêmio Jabuti e atual diretor cultural do Império Serrano.
Marcelo Moutinho, criado em Madureira, relatou seu percurso desde o subúrbio até a literatura e o jornalismo. Contou que, ao chegar à universidade, sentiu um “completo débito” com colegas filhos de engenheiros e advogados, enquanto seu pai era comerciante sem sequer o primeiro grau. Foi ao inventariar os bens do pai que descobriu a riqueza cultural do bairro: “Eu percebi que, durante muito tempo, eu reproduzia um discurso de que havia assuntos que deveriam entrar na literatura e assuntos que não deveriam entrar.” Para ele, o saber suburbano, como o futebol, o samba, o jongo e a vida do boteco, não é menor: “É um outro saber, uma outra cosmogonia, uma outra explicação de mundo.”
Moutinho também questionou a hierarquização dos personagens literários: “Quando eu vou falar de um personagem de outro extrato, eu tenho sempre que tratá-lo como categoria social? Quem viveu nesses lugares sabe muito bem que a gente também vive histórias de amor, de morte, de felicidade e de tristeza.”
Sandra Carneiro apresentou sua trajetória de pesquisa sobre o subúrbio carioca, iniciada nos anos 1970 no Museu Nacional, sob orientação de Gilberto Velho. Contou que sua dissertação de mestrado, em 1982, foi a primeira do Museu Nacional sobre o subúrbio, à época considerado um tema “não digno de ser estudado”. Em Madureira, descobriu uma efervescência cultural que contrariava o estigma de lugar triste: “Eu vi uma explosão de efervescência, de festa, de manifestação, de amizade, de culto à vida comunitária.”
A antropóloga apresentou sua pesquisa atual sobre coletivos culturais suburbanos, como 100% Suburbano, Visão Suburbana e Sarau Subúrbio, que integram o que ela chama de “movimento de dignificação dos subúrbios”. Segundo Sandra, esses coletivos são “vagalumes de esperança” que produzem uma nova narrativa sobre o subúrbio, contrapondo a visão preconceituosa e pejorativa historicamente hegemônica.
O mediador, Luiz Cláudio Espírito Santo, arrematou citando um samba de Casquinha da Portela, em resposta aos críticos que hierarquizavam produções culturais: “Você diz que o meu samba é sambinha, pode me meter o malho. Enquanto você diz que o meu samba é sambinha, encontra material para o seu trabalho.” E anunciou o Sim Pro Samba, roda de samba que acontecerá na Praça da Professora e do Professor no dia 21 de agosto.
Assista à palestra completa “Pluridentidades Culturais Cariocas” no canal do Sinpro-Rio no YouTube:
Último dia da Feira de Livros: venha participar
A Feira de Livros do Sinpro-Rio chega ao seu último dia neste sábado, 15 de agosto, com uma programação gratuita e aberta a toda a comunidade:
Sábado, 15 de agosto – 9h às 13h
Praça da Professora e do Professor – Rua Pedro Lessa, 35, Centro, perto da saída C do Metrô Cinelândia
Entrada gratuita
Além das palestras, a Feira de Livros conta com estandes de 10 editoras e sessões de autógrafos com os autores participantes. Compareça e participe deste espaço de debate, cultura e transformação.
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Este post foi publicado em
14/08/2026 às
21:00
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