Feminicídio político e legado dos CIEPs marcam primeiro dia da Feira de Livros do Sinpro-Rio

Renata Souza, Pastor Henrique Vieira, Waldeck Carneiro e André Lemos discutiram violência política de gênero, democracia e os desafios atuais da educação integral.

Nesta quinta-feira, 13, o Espaço Paulo Freire abriu as portas para receber dois debates da Feira de Livros que, embora distintos em objeto, convergem na defesa da democracia e dos direitos sociais. 

De um lado, o feminicídio político como estratégia de silenciamento das mulheres na política. Do outro, os 40 anos dos CIEPs e a luta por uma educação integral que transcenda a mera ampliação da jornada escolar. Em comum, a percepção de que o Brasil vive um momento de retrocesso que exige memória, organização e enfrentamento.

Mediados por diretores do Sinpro-Rio, os debates reuniram parlamentares, pesquisadores e professores diante de um público atento, composto em grande parte por educadores da rede pública e privada. 

As palestras ficaram gravadas e estão disponíveis no canal do Sinpro-Rio no YouTube; um registro que amplia o alcance da Feira para além do espaço físico do sindicato.

Violência política de gênero: nomear para enfrentar

A primeira palestra da noite trouxe a deputada estadual Renata Souza e o deputado federal Pastor Henrique Vieira, mediados por Fernando Vieira, diretor da Secretaria de Educação e Cultura do Sinpro-Rio, para discutir o conceito de feminicídio político, cunhado por Renata em sua pesquisa acadêmica e lançado em livro, disponível no estande da editora Rubra, presente na Feira de Livros.

Renata abriu o debate com um relato pessoal: ao sair de um restaurante, foi abordada por uma mulher com uma chave de fenda apontada para sua barriga, chamando-a de “P*ta da Alerj”. A partir dessa experiência, articulou a tese central de sua fala:

“A violência política de gênero e esse conceito, que não é apenas um conceito, está falando da experiência concreta de mulheres na política, sobre feminicídio político, é uma questão existencial das mulheres na democracia brasileira.”

Pastor Henrique Vieira ofereceu uma estrutura analítica ao remontar à colonização, quando as câmaras municipais eram compostas pelos “homens bons” e nomeou quem era: os brancos, os católicos, os proprietários de terras e os escravocratas. Para o deputado, o patriarcado é um sistema estruturado: “é um sistema político, cultural e econômico que confere a nós homens privilégios e vantagens cotidianamente e isso está para além da nossa intencionalidade individual.” Ele destacou que a extrema-direita naturaliza essas violências: “Pega essas violências estruturais e enaltece. Esquece a desculpa. É esse o projeto mesmo: superioridade branca, masculina, cis-hétera, cristã sobre todo mundo.”

Vieira relatou ainda a aprovação, na véspera, na Comissão de Segurança Pública, de uma emenda que isenta de tipificação do crime de misoginia a atos motivados por “base religiosa, ideológica, moral ou acadêmica”, com um único voto contrário, o dele. “Liberdade religiosa não pode resguardar cometimento de crime. Simples assim”, afirmou.

Renata Souza propôs uma síntese entre luta feminista e luta de classes: “A gente precisa atualizar o marxismo entendendo que a luta de classes tem gênero, tem raça e tem território.” Alertou para o retrocesso global de direitos e, sobre a obrigatoriedade de crianças estupradas gerarem filhos, afirmou: “Criança não é mãe, estuprador não é pai.” A deputada destacou ainda o papel das big techs na amplificação da violência e defendeu a presença de rua como estratégia: “O nosso campo de luta são as ruas. É encontrar as pessoas, é o olho no olho, é isso que nos resta, o trabalho de formiguinha que sempre fizemos na vida.”

Ao encerrar, Pastor Henrique Vieira afirmou: “Não está escrito em nenhum lugar ontológico e metafísico que o nosso futuro é o capitalismo neoliberal, patriarcal, racista. Isso não está escrito, está em disputa.”

Assista à palestra completa “Feminicídio na Política” no canal do Sinpro-Rio no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=oS4a1vQGT84 

 40 anos do CIEP: contra o silêncio, a memória

A segunda palestra da noite teve como mediador Edmundo Aguiar, diretor do Sinpro-Rio, que conduziu a conversa sobre o livro “Educação Integral em Tempo Integral: Marco dos 40 Anos dos CIEPs”, organizado por Waldeck Carneiro e André Lemos, publicado pela editora Intertexto.

André Lemos abriu a mesa situando o paradoxo atual: o Rio de Janeiro aparece em penúltimo lugar no IDEB 2025, apesar de ter sido pioneiro na proposição de educação integral em tempo integral. “Sendo o Rio de Janeiro o pioneiro a propor, comprovadamente, que os estados que têm maior experiência com educação integral em tempo integral, a educação avança”, afirmou, citando Paraná, Ceará e Pernambuco como estados que investiram no modelo e colheram resultados. Lemos fundamentou a discussão a partir de Gramsci, destacando a concepção de escola unitária: “Todas as classes sociais têm que ter a mesma escola. A mesma escola para todo mundo.”

Waldeck Carneiro explicou que o livro nasceu de uma constatação: em 2025, o Estado do Rio de Janeiro fez um “silêncio de catedral” sobre os 40 anos dos CIEPs. “Não havia nada sobre isso, ninguém falava, a Secretaria de Estado de Educação, é melhor nem comentar, porque de onde não se espera nada, é daí que não sai nada mesmo”, disse. A obra reúne a pesquisa de mestrado de Lemos sobre o embate entre a Rede Globo e o projeto dos CIEPs, depoimentos de pedagogas que trabalharam com Darcy Ribeiro e pesquisas recentes, com prefácio de Jaqueline Moll.

Waldeck resgatou a linhagem intelectual do projeto: Anísio Teixeira, nos anos 1940, construiu em Salvador a Escola Parque, experiência matricial que inspirou Darcy Ribeiro. Em 1982, sob a ditadura militar, Leonel Brizola venceu a eleição para governador com a educação como pauta central. Waldeck destacou a adversidade enfrentada: “Era um governo ultravigiado pela ditadura, Brizola era visto como o inimigo público número um, sufoco orçamentário danado, o governo federal não dava trégua, e um bombardeio da mídia hegemônica.” O orçamento estadual da educação chegou a beirar 40%, sem paralelo na história da administração pública brasileira.

Waldeck recordou ainda dois episódios emblemáticos: Roberto Marinho, ao receber o projeto, respondeu que “não precisa desse investimento todo”; e no debate presidencial de 1994, Brizola replicou a Fernando Henrique Cardoso, que perguntou se o CIEP era caro: “Cara mesmo é ignorância. E isso custa caro para o Brasil.”

O ponto central da palestra foi a distinção entre educação integral e jornada ampliada. Waldeck foi categórico: “O que define a educação integral é uma concepção pedagógica, uma concepção curricular pela qual se pretende formar a pessoa numa dimensão multidimensional. A duração da jornada é uma decorrência da concepção pedagógica. Você pode ter escolas funcionando o dia inteiro e não necessariamente ser educação integral, com alunos fazendo mais do mesmo o dia inteiro.” A professora Fátima Lima, aposentada da rede municipal, corroborou com lembranças dos CIEPs — gabinetes dentários, mães sociais, animadores culturais — e questionou a “mimetização” atual do conceito.

Waldeck foi honesto sobre as limitações do projeto ao declarar que “era obra humana, portanto, imperfeita”, mas defendeu sua dimensão popular: “Tinha um compromisso genuíno, autêntico, de garantir o direito à educação para as classes populares. Isso não é pouca coisa.” Sobre o futuro, criticou o programa federal Escola em Tempo Integral por reduzir a educação integral à duração da jornada e citou o caso de Nova Friburgo, onde a prefeitura reduziu a jornada das creches para se adequar ao parâmetro federal, gerando aumento de pedidos de demissão de mulheres na indústria têxtil local. Renovou ainda seu compromisso com a luta pelos animadores culturais, que há 40 anos trabalham em limbo jurídico: “Não haveria CIEP sem o trabalho da animação cultural feito nessas escolas.”

André Lemos encerrou propondo articulação entre os campos progressistas: “Temos que sentar para conversar e discutir o que é o projeto de educação para pressionar todos os governos que estiverem por aí à frente.”

Assista à palestra completa “40 anos do CIEP: Educação Integral em Tempo Integral” no canal do Sinpro-Rio no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=IjPSRvgZNwA 

A Feira de Livros continua: venha participar

A Feira de Livros do Sinpro-Rio segue com uma programação gratuita e aberta a toda a comunidade. Além das palestras, a feira conta com estandes de editoras, sessões de autógrafos e atividades culturais. 

Confira os próximos dias:

Sexta-feira, 14 de agosto – 9h às 18h
Sábado, 15 de agosto – 9h às 13h
Praça da Professora e do Professor – Rua Pedro Lessa, 35, Centro, perto da saída C do Metrô Cinelândia

A Feira de Livros do Sinpro-Rio é uma realização do sindicato em defesa da educação, da cultura e da democracia. Compareça, traga amigos e familiares, e participe deste espaço de debate e transformação.


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Este post foi publicado em 14/08/2026 às 09:00 dentro da(s) categoria(s): Notícias, Primeira página, Publicações.
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