{"id":20424,"date":"2011-12-07T00:00:00","date_gmt":"2011-12-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"-0001-11-30T00:00:00","modified_gmt":"-0001-11-30T03:00:00","slug":"maria-yedda-leite-linhares-1921-2011","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinpro-rio.org.br\/principal\/maria-yedda-leite-linhares-1921-2011\/","title":{"rendered":"Maria Yedda Leite Linhares \u2013 1921\/2011"},"content":{"rendered":"\n<p>\n <em><br \/>\n  07\/12\/2011<br \/>\n <\/em>\n<\/p>\n<p>\n Maria Yedda Leite Linhares foi acima de tudo uma formadora de gente. Sua alegria, a grande satisfa\u00e7\u00e3o, era ter em seu redor jovens com quem dialogasse \u2013 sempre de forma igual, buscando em cada  um deles, um talento, uma voca\u00e7\u00e3o.  Em torno de sua sala de aula e de seus gabinetes de pesquisas passaram gera\u00e7\u00f5es. A primeira delas com nomes como Arthur e Hugo Weiss, Valentina Rocha Lima, Francisco Falcon e Helena Lewin. A estes se agregou uma segunda turma, formada pelos jovens Ciro Cardoso, Barbara Levy, Jos\u00e9 Luis Werneck da Silva, Berenice Brand\u00e3o. E ent\u00e3o veio a voca\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel de participar, de viver no mundo, e fazer a mudan\u00e7a: as lutas pol\u00edticas e sociais tomaram vulto: contra as oligarquias, contra os entreguistas, contra as burocracias e as velhas lideran\u00e7as acad\u00eamicas carcomidas. Sua integral participa\u00e7\u00e3o nas lutas do seu tempo a levaria, em 1964, a viver a cada dia no cora\u00e7\u00e3o da crise do Brasil moderno.<\/p>\n<p>\n  Contra todos os conselhos, inclusive do bom-senso e sabedoria do Dr. Jos\u00e9 Linhares, ou \u201co Jos\u00e9\u201d simplesmente, ela insistira. N\u00e3o havia conserto, era da sua natureza. Nascera assim. L\u00e1 no Cear\u00e1, em 3 de novembro de 1921, nascera &#8211; para usar a express\u00e3o do poeta que ela tanto amaria &#8211; \u201cgauche na vida\u201d.  Meninota, contra a vontade dos pais, colocara um imenso la\u00e7o vermelho nos cabelos para ver a passagem das tropas revolucion\u00e1rias que adentravam o Cal\u00e7amento de Messejana para conquistar Fortaleza em 1930. A\u00ed consolidara sua voca\u00e7\u00e3o: rebelde, teimosa, voluntariosa, humana e generosa.<\/p>\n<p>\n   Com a fam\u00edlia, seguindo o rastro da crise mundial que derrubara os pre\u00e7os do algod\u00e3o, mudou-se para Porto Alegre. L\u00e1 ficou pouco tempo. Sofreu uma infec\u00e7\u00e3o no ouvido, que mais tarde martirizaria a vida e a vaidade.   Mudaram-se para o Rio. Aqui, na capital federal, abriu-se o espa\u00e7o e as redes sociais que permitiriam a Maria Yedda ser a mulher que marcou seu tempo. Autodidata, com uma letra incompreens\u00edvel, adaptou-se mal ao col\u00e9gio de freiras. Estudou ainda mais, em especial portugu\u00eas \u2013 que se tornou uma obsess\u00e3o e quase a nos rouba para o jornalismo \u2013 e hist\u00f3ria. Na maratona de educa\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ou o primeiro lugar, tendo como pr\u00eamio o \u00fanico livro que jamais emprestou: a Hist\u00f3ria Geral de Varnhagen.<\/p>\n<p>\n    A cria\u00e7\u00e3o da UDF facilitou sua ascens\u00e3o ao curso de \u201cfilosofia\u201d \u2013 entendida bem mais como um curso humanista para a forma\u00e7\u00e3o de professores. L\u00e1 conheceu os amigos que marcariam sua vida: o Dr. An\u00edsio Teixeira, uma marca poderosa.  Com o Dr. An\u00edsio apreendeu, e acreditou, por toda vida que somente a educa\u00e7\u00e3o para todos, laica e p\u00fablica, mudaria o pa\u00eds. A\u00ed encontrou tamb\u00e9m seu amigo de vida, Darcy Ribeiro \u2013 o que n\u00e3o quer dizer, de forma alguma, que n\u00e3o brigassem como c\u00e3o e gato. Conviveu como jovem estudante, em sala de aula ou em reuni\u00f5es e debates, com homens como Hermes Lima, Brochado da Rocha, San Thiago Dantas &#8211; todos jovens professores e oponentes da ditadura varguista. Yedda ouvia, apreendia  e preparava-se tamb\u00e9m para participar.<\/p>\n<p>\n     Por fim assistiu a derrocada da UDF, o golpe do Estado Novo e a pris\u00e3o de Pedro Ernesto e de seus jovens professores.<\/p>\n<p>\n      Sua excel\u00eancia em portugu\u00eas, j\u00e1 naquele momento conhecida de todos, a aproximou de uma severa senhora americana encarregada da forma\u00e7\u00e3o de quadros do Dasp. Era a chegada da pol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a. Maria Yedda foi para os Estados Unidos, jovem, corajosa e sozinha. Um fen\u00f4meno em sua \u00e9poca. Estudou no Barnard College, na Universidade de Columbia.<\/p>\n<p>\n       Nada seria igual depois disso. Creio que mesmo o amor, e gratid\u00e3o, que viria a ter pela Fran\u00e7a, n\u00e3o igualariam jamais a admira\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos.  Sozinha, e precisando viver, tornou-se, ainda uma vez, professora de portugu\u00eas para americanos e, depois, em ingl\u00eas, locutora da r\u00e1dio universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\n        Travou la\u00e7os de amizade com uma gera\u00e7\u00e3o de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascens\u00e3o.  Conheceu a poesia americana, espanhola e a arte deslumbrante de um M\u00e9xico insurgente. Amava Lorca. Freq\u00fcentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O ingl\u00eas tornou-se uma l\u00edngua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.<\/p>\n<p>\n         Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n          Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n           Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n            O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n             Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n              Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n               Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n                Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n                 Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n                  Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n                   Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n                    O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n                     Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n                      Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n                       Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                        Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                         Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                        <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Contra todos os conselhos, inclusive do bom-senso e sabedoria do Dr. Jos\u00e9 Linhares, ou \u201co Jos\u00e9\u201d simplesmente, ela insistira. N\u00e3o havia conserto, era da sua natureza. Nascera assim. L\u00e1 no Cear\u00e1, em 3 de novembro de 1921, nascera &#8211; para usar a express\u00e3o do poeta que ela tanto amaria &#8211; \u201cgauche na vida\u201d.  Meninota, contra a vontade dos pais, colocara um imenso la\u00e7o vermelho nos cabelos para ver a passagem das tropas revolucion\u00e1rias que adentravam o Cal\u00e7amento de Messejana para conquistar Fortaleza em 1930. A\u00ed consolidara sua voca\u00e7\u00e3o: rebelde, teimosa, voluntariosa, humana e generosa.<\/p>\n<p>\n  Com a fam\u00edlia, seguindo o rastro da crise mundial que derrubara os pre\u00e7os do algod\u00e3o, mudou-se para Porto Alegre. L\u00e1 ficou pouco tempo. Sofreu uma infec\u00e7\u00e3o no ouvido, que mais tarde martirizaria a vida e a vaidade.   Mudaram-se para o Rio. Aqui, na capital federal, abriu-se o espa\u00e7o e as redes sociais que permitiriam a Maria Yedda ser a mulher que marcou seu tempo. Autodidata, com uma letra incompreens\u00edvel, adaptou-se mal ao col\u00e9gio de freiras. Estudou ainda mais, em especial portugu\u00eas \u2013 que se tornou uma obsess\u00e3o e quase a nos rouba para o jornalismo \u2013 e hist\u00f3ria. Na maratona de educa\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ou o primeiro lugar, tendo como pr\u00eamio o \u00fanico livro que jamais emprestou: a Hist\u00f3ria Geral de Varnhagen.<\/p>\n<p>\n   A cria\u00e7\u00e3o da UDF facilitou sua ascens\u00e3o ao curso de \u201cfilosofia\u201d \u2013 entendida bem mais como um curso humanista para a forma\u00e7\u00e3o de professores. L\u00e1 conheceu os amigos que marcariam sua vida: o Dr. An\u00edsio Teixeira, uma marca poderosa.  Com o Dr. An\u00edsio apreendeu, e acreditou, por toda vida que somente a educa\u00e7\u00e3o para todos, laica e p\u00fablica, mudaria o pa\u00eds. A\u00ed encontrou tamb\u00e9m seu amigo de vida, Darcy Ribeiro \u2013 o que n\u00e3o quer dizer, de forma alguma, que n\u00e3o brigassem como c\u00e3o e gato. Conviveu como jovem estudante, em sala de aula ou em reuni\u00f5es e debates, com homens como Hermes Lima, Brochado da Rocha, San Thiago Dantas &#8211; todos jovens professores e oponentes da ditadura varguista. Yedda ouvia, apreendia  e preparava-se tamb\u00e9m para participar.<\/p>\n<p>\n    Por fim assistiu a derrocada da UDF, o golpe do Estado Novo e a pris\u00e3o de Pedro Ernesto e de seus jovens professores.<\/p>\n<p>\n     Sua excel\u00eancia em portugu\u00eas, j\u00e1 naquele momento conhecida de todos, a aproximou de uma severa senhora americana encarregada da forma\u00e7\u00e3o de quadros do Dasp. Era a chegada da pol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a. Maria Yedda foi para os Estados Unidos, jovem, corajosa e sozinha. Um fen\u00f4meno em sua \u00e9poca. Estudou no Barnard College, na Universidade de Columbia.<\/p>\n<p>\n      Nada seria igual depois disso. Creio que mesmo o amor, e gratid\u00e3o, que viria a ter pela Fran\u00e7a, n\u00e3o igualariam jamais a admira\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos.  Sozinha, e precisando viver, tornou-se, ainda uma vez, professora de portugu\u00eas para americanos e, depois, em ingl\u00eas, locutora da r\u00e1dio universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\n       Travou la\u00e7os de amizade com uma gera\u00e7\u00e3o de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascens\u00e3o.  Conheceu a poesia americana, espanhola e a arte deslumbrante de um M\u00e9xico insurgente. Amava Lorca. Freq\u00fcentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O ingl\u00eas tornou-se uma l\u00edngua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.<\/p>\n<p>\n        Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n         Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n          Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n           O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n            Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n             Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n              Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n               Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n                Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n                 Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n                  Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n                   O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n                    Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n                     Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n                      Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                       Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                        Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                       <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Com a fam\u00edlia, seguindo o rastro da crise mundial que derrubara os pre\u00e7os do algod\u00e3o, mudou-se para Porto Alegre. L\u00e1 ficou pouco tempo. Sofreu uma infec\u00e7\u00e3o no ouvido, que mais tarde martirizaria a vida e a vaidade.   Mudaram-se para o Rio. Aqui, na capital federal, abriu-se o espa\u00e7o e as redes sociais que permitiriam a Maria Yedda ser a mulher que marcou seu tempo. Autodidata, com uma letra incompreens\u00edvel, adaptou-se mal ao col\u00e9gio de freiras. Estudou ainda mais, em especial portugu\u00eas \u2013 que se tornou uma obsess\u00e3o e quase a nos rouba para o jornalismo \u2013 e hist\u00f3ria. Na maratona de educa\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ou o primeiro lugar, tendo como pr\u00eamio o \u00fanico livro que jamais emprestou: a Hist\u00f3ria Geral de Varnhagen.<\/p>\n<p>\n  A cria\u00e7\u00e3o da UDF facilitou sua ascens\u00e3o ao curso de \u201cfilosofia\u201d \u2013 entendida bem mais como um curso humanista para a forma\u00e7\u00e3o de professores. L\u00e1 conheceu os amigos que marcariam sua vida: o Dr. An\u00edsio Teixeira, uma marca poderosa.  Com o Dr. An\u00edsio apreendeu, e acreditou, por toda vida que somente a educa\u00e7\u00e3o para todos, laica e p\u00fablica, mudaria o pa\u00eds. A\u00ed encontrou tamb\u00e9m seu amigo de vida, Darcy Ribeiro \u2013 o que n\u00e3o quer dizer, de forma alguma, que n\u00e3o brigassem como c\u00e3o e gato. Conviveu como jovem estudante, em sala de aula ou em reuni\u00f5es e debates, com homens como Hermes Lima, Brochado da Rocha, San Thiago Dantas &#8211; todos jovens professores e oponentes da ditadura varguista. Yedda ouvia, apreendia  e preparava-se tamb\u00e9m para participar.<\/p>\n<p>\n   Por fim assistiu a derrocada da UDF, o golpe do Estado Novo e a pris\u00e3o de Pedro Ernesto e de seus jovens professores.<\/p>\n<p>\n    Sua excel\u00eancia em portugu\u00eas, j\u00e1 naquele momento conhecida de todos, a aproximou de uma severa senhora americana encarregada da forma\u00e7\u00e3o de quadros do Dasp. Era a chegada da pol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a. Maria Yedda foi para os Estados Unidos, jovem, corajosa e sozinha. Um fen\u00f4meno em sua \u00e9poca. Estudou no Barnard College, na Universidade de Columbia.<\/p>\n<p>\n     Nada seria igual depois disso. Creio que mesmo o amor, e gratid\u00e3o, que viria a ter pela Fran\u00e7a, n\u00e3o igualariam jamais a admira\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos.  Sozinha, e precisando viver, tornou-se, ainda uma vez, professora de portugu\u00eas para americanos e, depois, em ingl\u00eas, locutora da r\u00e1dio universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\n      Travou la\u00e7os de amizade com uma gera\u00e7\u00e3o de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascens\u00e3o.  Conheceu a poesia americana, espanhola e a arte deslumbrante de um M\u00e9xico insurgente. Amava Lorca. Freq\u00fcentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O ingl\u00eas tornou-se uma l\u00edngua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.<\/p>\n<p>\n       Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n        Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n         Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n          O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n           Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n            Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n             Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n              Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n               Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n                Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n                 Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n                  O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n                   Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n                    Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n                     Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                      Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                       Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                      <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n A cria\u00e7\u00e3o da UDF facilitou sua ascens\u00e3o ao curso de \u201cfilosofia\u201d \u2013 entendida bem mais como um curso humanista para a forma\u00e7\u00e3o de professores. L\u00e1 conheceu os amigos que marcariam sua vida: o Dr. An\u00edsio Teixeira, uma marca poderosa.  Com o Dr. An\u00edsio apreendeu, e acreditou, por toda vida que somente a educa\u00e7\u00e3o para todos, laica e p\u00fablica, mudaria o pa\u00eds. A\u00ed encontrou tamb\u00e9m seu amigo de vida, Darcy Ribeiro \u2013 o que n\u00e3o quer dizer, de forma alguma, que n\u00e3o brigassem como c\u00e3o e gato. Conviveu como jovem estudante, em sala de aula ou em reuni\u00f5es e debates, com homens como Hermes Lima, Brochado da Rocha, San Thiago Dantas &#8211; todos jovens professores e oponentes da ditadura varguista. Yedda ouvia, apreendia  e preparava-se tamb\u00e9m para participar.<\/p>\n<p>\n  Por fim assistiu a derrocada da UDF, o golpe do Estado Novo e a pris\u00e3o de Pedro Ernesto e de seus jovens professores.<\/p>\n<p>\n   Sua excel\u00eancia em portugu\u00eas, j\u00e1 naquele momento conhecida de todos, a aproximou de uma severa senhora americana encarregada da forma\u00e7\u00e3o de quadros do Dasp. Era a chegada da pol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a. Maria Yedda foi para os Estados Unidos, jovem, corajosa e sozinha. Um fen\u00f4meno em sua \u00e9poca. Estudou no Barnard College, na Universidade de Columbia.<\/p>\n<p>\n    Nada seria igual depois disso. Creio que mesmo o amor, e gratid\u00e3o, que viria a ter pela Fran\u00e7a, n\u00e3o igualariam jamais a admira\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos.  Sozinha, e precisando viver, tornou-se, ainda uma vez, professora de portugu\u00eas para americanos e, depois, em ingl\u00eas, locutora da r\u00e1dio universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\n     Travou la\u00e7os de amizade com uma gera\u00e7\u00e3o de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascens\u00e3o.  Conheceu a poesia americana, espanhola e a arte deslumbrante de um M\u00e9xico insurgente. Amava Lorca. Freq\u00fcentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O ingl\u00eas tornou-se uma l\u00edngua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.<\/p>\n<p>\n      Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n       Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n        Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n         O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n          Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n           Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n            Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n             Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n              Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n               Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n                Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n                 O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n                  Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n                   Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n                    Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                     Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                      Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                     <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Por fim assistiu a derrocada da UDF, o golpe do Estado Novo e a pris\u00e3o de Pedro Ernesto e de seus jovens professores.<\/p>\n<p>\n  Sua excel\u00eancia em portugu\u00eas, j\u00e1 naquele momento conhecida de todos, a aproximou de uma severa senhora americana encarregada da forma\u00e7\u00e3o de quadros do Dasp. Era a chegada da pol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a. Maria Yedda foi para os Estados Unidos, jovem, corajosa e sozinha. Um fen\u00f4meno em sua \u00e9poca. Estudou no Barnard College, na Universidade de Columbia.<\/p>\n<p>\n   Nada seria igual depois disso. Creio que mesmo o amor, e gratid\u00e3o, que viria a ter pela Fran\u00e7a, n\u00e3o igualariam jamais a admira\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos.  Sozinha, e precisando viver, tornou-se, ainda uma vez, professora de portugu\u00eas para americanos e, depois, em ingl\u00eas, locutora da r\u00e1dio universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\n    Travou la\u00e7os de amizade com uma gera\u00e7\u00e3o de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascens\u00e3o.  Conheceu a poesia americana, espanhola e a arte deslumbrante de um M\u00e9xico insurgente. Amava Lorca. Freq\u00fcentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O ingl\u00eas tornou-se uma l\u00edngua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.<\/p>\n<p>\n     Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n      Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n       Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n        O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n         Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n          Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n           Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n            Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n             Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n              Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n               Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n                O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n                 Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n                  Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n                   Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                    Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                     Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                    <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Sua excel\u00eancia em portugu\u00eas, j\u00e1 naquele momento conhecida de todos, a aproximou de uma severa senhora americana encarregada da forma\u00e7\u00e3o de quadros do Dasp. Era a chegada da pol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a. Maria Yedda foi para os Estados Unidos, jovem, corajosa e sozinha. Um fen\u00f4meno em sua \u00e9poca. Estudou no Barnard College, na Universidade de Columbia.<\/p>\n<p>\n  Nada seria igual depois disso. Creio que mesmo o amor, e gratid\u00e3o, que viria a ter pela Fran\u00e7a, n\u00e3o igualariam jamais a admira\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos.  Sozinha, e precisando viver, tornou-se, ainda uma vez, professora de portugu\u00eas para americanos e, depois, em ingl\u00eas, locutora da r\u00e1dio universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\n   Travou la\u00e7os de amizade com uma gera\u00e7\u00e3o de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascens\u00e3o.  Conheceu a poesia americana, espanhola e a arte deslumbrante de um M\u00e9xico insurgente. Amava Lorca. Freq\u00fcentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O ingl\u00eas tornou-se uma l\u00edngua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.<\/p>\n<p>\n    Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n     Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n      Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n       O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n        Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n         Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n          Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n           Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n            Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n             Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n              Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n               O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n                Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n                 Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n                  Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                   Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                    Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                   <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Nada seria igual depois disso. Creio que mesmo o amor, e gratid\u00e3o, que viria a ter pela Fran\u00e7a, n\u00e3o igualariam jamais a admira\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos.  Sozinha, e precisando viver, tornou-se, ainda uma vez, professora de portugu\u00eas para americanos e, depois, em ingl\u00eas, locutora da r\u00e1dio universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\n  Travou la\u00e7os de amizade com uma gera\u00e7\u00e3o de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascens\u00e3o.  Conheceu a poesia americana, espanhola e a arte deslumbrante de um M\u00e9xico insurgente. Amava Lorca. Freq\u00fcentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O ingl\u00eas tornou-se uma l\u00edngua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.<\/p>\n<p>\n   Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n    Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n     Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n      O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n       Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n        Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n         Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n          Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n           Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n            Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n             Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n              O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n               Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n                Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n                 Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                  Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                   Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                  <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Travou la\u00e7os de amizade com uma gera\u00e7\u00e3o de exilados da guerra civil espanhola, odiou Franco e ouviu os relatos das atrocidades dos fascismos em ascens\u00e3o.  Conheceu a poesia americana, espanhola e a arte deslumbrante de um M\u00e9xico insurgente. Amava Lorca. Freq\u00fcentou o Radio City Hall e apaixonou-se pelo jovem Frank Sinatra. O ingl\u00eas tornou-se uma l\u00edngua fluente, na qual amava dizer poesias. Todas modernas, nunca amou Shakespeare, mas ficaria para sempre fascinada pela sonoridade de Walt Whitman.<\/p>\n<p>\n  Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n   Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n    Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n     O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n      Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n       Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n        Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n         Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n          Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n           Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n            Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n             O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n              Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n               Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n                Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                 Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                  Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                 <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Ent\u00e3o veio guerra e a decis\u00e3o de voltar ao Brasil. Tr\u00eas dias de avi\u00e3o, porto por porto, at\u00e9 mesmo no Caribe com o piloto perseguindo um submarino alem\u00e3o. O Rio mudara, o Brasil se cansava da ditadura nativa.  Voltava para universidade, agora a UB, a gloriosa universidade da qual seria a mais jovem mulher catedr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\n  Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n   Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n    O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n     Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n      Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n       Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n        Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n         Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n          Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n           Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n            O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n             Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n              Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n               Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n                Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                 Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n                <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Travava amizade com Delgado de Carvalho, o decano da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Mais do que tudo: conhecia Jos\u00e9, jovem r\u00e1bula, que a traria, ainda mais, para o cora\u00e7\u00e3o da crise, casando-se e convivendo com os atores do poder. Data da\u00ed a amizade e o respeito por Alzira Vargas \u2013 o que importava que fosse oposi\u00e7\u00e3o, tratava-se de \u201cAlzirinha\u201d, t\u00e3o somente. Jamais esqueceria a desobedi\u00eancia do Comandante Amaral Peixoto, o pai da nossa \u201cFran\u00e7a Livre\u201d, Niter\u00f3i!<\/p>\n<p>\n  Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n   O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n    Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n     Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n      Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n       Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n        Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n         Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n          Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n           O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n            Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n             Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n              Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n               Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n                Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n               <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Tornou-se fundadora da UNE e sua primeira diretora do \u201cDepartamento Cultural\u201d: o teatro, incluindo o jovem teatro negro, as revistas culturais e dos debates. Talvez fosse sempre isso do que Yedda mais gostava. O debate. Quente. Vivo. M\u00faltiplo.  Formou-se a frente pela entrada do Brasil na guerra mundial. L\u00e1 estava ela, na primeira fila, de bra\u00e7os com Marighela! O escrit\u00f3rio da Reuters, na Cinel\u00e2ndia, tornar-se-ia seu pr\u00f3rpio escrit\u00f3rio, lendo em primeira m\u00e3o os telegramas que relatavam a guerra. Tornar-se-ia, para sempre e do fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, botafoguense. Os chamados rapazes do Botafogo, com Jo\u00e3o Saldanha \u00e0 frente, seriam parceiros de caminhadas na ent\u00e3o estreita cal\u00e7ada de Copacabana.<\/p>\n<p>\n  O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n   Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n    Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n     Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n      Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n       Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n        Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n         Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n          O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n           Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n            Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n             Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n              Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n               Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n              <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n O casamento deveria ter equilibrado sua voca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, creio, contudo, que foi o Dr. Jos\u00e9 que se acostumou ao sobressalto. Aconselhava, pedia e sempre, sempre, punha-se ao seu lado. Em toda crise repetia a mesma coisa: \u201cMinha filha, n\u00e3o diga nada, espere para ouvir&#8230;\u201d In\u00fatil, Yedda n\u00e3o era mulher de esperar. Agia. Muitas vezes na dire\u00e7\u00e3o certa, guiada por seu instinto contr\u00e1rio a toda injusti\u00e7a. Outras vezes era precipitada, nunca, contudo, injusta. No mais das vezes prejudicava a si mesma.<\/p>\n<p>\n  Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n   Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n    Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n     Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n      Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n       Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n        Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n         O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n          Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n           Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n            Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n             Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n              Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n             <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Do casamento teve Maria Teresa, \u201cTeca\u201d, e Jos\u00e9, \u201cZequinha\u201d! Havia orgulho nos filhos, via-se neles, sentia por eles.  Uma das maiores revoltas foi v\u00ea-los envolvidos na insidiosa e mals\u00e3 campanha da imprensa golpista nos idos de mar\u00e7o de 1964. Creio tamb\u00e9m que ambos pagaram algum pre\u00e7o \u2013 o pre\u00e7o de serem filhos de Yedda, o pre\u00e7o das horas roubadas, o pre\u00e7o de partilh\u00e1-la com todos n\u00f3s, comigo, com Ciro Cardoso e principalmente com Francisco Falcon. Temos que pedir perd\u00e3o por isso, perd\u00e3o por t\u00ea-la tanto tempo conosco! A tudo se juntava a presen\u00e7a de Yonne Leite, outro motivo de orgulho de Yedda, que a via, com tudo que isso encerra, bem mais como filha do que irm\u00e3.<\/p>\n<p>\n  Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n   Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n    Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n     Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n      Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n       Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n        O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n         Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n          Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n           Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n            Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n             Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n            <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Na casa, a velha Virg\u00ednia cuidava de todos, incluindo alimentar os famintos assistentes, como o insistente Falcon.<\/p>\n<p>\n  Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n   Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n    Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n     Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n      Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n       O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n        Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n         Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n          Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n           Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n            Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n           <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Vieram os concursos, provas, cerim\u00f4nias, becas e arminhos. Substitu\u00eda Delgado de Carvalho como catedr\u00e1tica: foi o dia que mais chorou na vida. N\u00e3o queria a c\u00e1tedra, ao menos n\u00e3o queria \u201caquela c\u00e1tedra\u201d \u2013 lutaria todo o resto de sua vida para mudar a universidade. Falcon seria seu principal companheiro de trabalho, de lealdade e de debates intelectuais. Livros inteiros eram lidos e resenhados pelo telefone, todas as noites.<\/p>\n<p>\n  Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n   Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n    Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n     Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n      O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n       Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n        Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n         Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n          Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n           Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n          <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Os tempos eram de chumbo, o ar era arenoso e o ch\u00e3o fugidio. Yedda namorava com o PCBR, respeitava e ouvi a Apol\u00f4nio de Carvalho, tinha Ren\u00e9e como amiga. Apoiara o ministro da educa\u00e7\u00e3o, assumia a dire\u00e7\u00e3o da Radio MEC. Desesperada, sem tempo, negociando e montando uma equipe de trabalho, pediria a Eduardo Portella que escrevesse seu discurso de posse, dizendo pelo telefone o que queria dizer.  Ao seu lado estaria como fi\u00e9l escudeira a nossa Sandra Ribeiro da Costa, forte, sem sutilezas e capaz de proteg\u00ea-la, inclusive dela mesma.<\/p>\n<p>\n  Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n   Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n    Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n     O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n      Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n       Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n        Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n         Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n          Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n         <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Usou seu espa\u00e7o para fazer cultura, afastou-se do ambiente mals\u00e3o da FNFi daqueles dias. Adorava as \u00f3peras e a m\u00fasica erudita, da qual se tornou aficionada, muitas vezes tendo Ciro Cardoso como interlocutor. S\u00f3 detestava o Bolero de Ravel. Deu a Roberto Carlos seu primeiro emprego no Rio, na pr\u00f3pria r\u00e1dio. Ent\u00e3o vieram rostos novos, em especial Alberto Coelho, um amigo que ser\u00e1 um consolo e uma fonte permanente de atualiza\u00e7\u00e3o e de novidades.<\/p>\n<p>\n  Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n   Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n    O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n     Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n      Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n       Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n        Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n         Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n        <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Ent\u00e3o veio o pior: as for\u00e7as alarmadas, como dizia \u201co Jos\u00e9\u201d, tomaram o poder. A \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Brasileira em curso\u201d, como diziam os amigos do ISEB, era feita de papel. As conseq\u00fc\u00eancias seriam terr\u00edveis. Pris\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias. Maria Yedda seria inculpada em 11 IPMs; seria acusada na m\u00eddia, seria espezinhada por muitos. Pouco importava, sabia o que fazer.<\/p>\n<p>\n  Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n   O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n    Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n     Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n      Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n       Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n        Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n       <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Queria proteger amigos \u2013 advertia Falcon, em raz\u00e3o do projeto da hist\u00f3ria nova. Passaria uma temporada no exterior e por fim tomaria \u00e0 frente da resist\u00eancia. No apartamento da Cinco de Julho organizava-se a Passeata dos Cem Mil. Em fim, o ar tornou-se irrespir\u00e1vel. As pris\u00f5es se sucederam&#8230;  Tirada do hospital foi levada para o 1\u00ba. RCC. Fernand Braudel e Jean-Paul Sartre escreveriam ao presidente-general exigindo sua liberdade.<\/p>\n<p>\n  O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n   Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n    Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n     Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n      Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n       Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n      <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n O ex\u00edlio seria na Fran\u00e7a. Primeiro Paris, onde encontraria Ciro Cardoso, e todos que estavam, e depois Toulouse-Le Mirail, onde Jacques Godechot e Bartolom\u00e9 Benassar a aceitariam com carinho e respeito.  Travaria conhecimento e angariaria respeito de todos: Albert Soboul, o amigo Mauro.<\/p>\n<p>\n  Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n   Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n    Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n     Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n      Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n     <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Por fim, o casamento de Maria Teresa e o nascimento de Patr\u00edcia, a primeira neta seriam de mais. For\u00e7ava seu retorno, antes do decreto da anistia. A press\u00e3o seria tremenda, obrigando-a a um ex\u00edlio interno, em Vassouras e impossibilitando toda pesquisa e doc\u00eancia em entidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\n  Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n   Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n    Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n     Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n    <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Com a volta reorganizavam-se as redes de sociabilidade, os amigos e os projetos. Em principio o CPDA, no Horto Florestal, depois a UFF e. em fim, o retorno \u00e0 casa, a UFRJ. Formava-se em torno dela uma nova gera\u00e7\u00e3o, dos quais Jo\u00e3o Fragoso e Hebe Mattos s\u00e3o os mais amados.<\/p>\n<p>\n  Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n   Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n    Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n   <\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>\n Em fim a redemocratiza\u00e7\u00e3o: Yedda ainda uma vez aceita os desafios. Primeiro \u00e9 a secretaria municpal de educa\u00e7\u00e3o, depois, por duas vezes, seria secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao lado de Darcy Ribeiro, lan\u00e7ariam m\u00e3o da heran\u00e7a do Dr. An\u00edsio Teixeira. Os cieps, brizol\u00f5es \u2013 a mais generosa e igualit\u00e1ria proposta de educa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds produziu \u2013 \u00e9 em verdade a vers\u00e3o moderna da escola-parque.<\/p>\n<p>\n  Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n   Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n  <\/p>\n<\/p>\n<p>\n Outros amigos vieram: Laurinda, Lia Faria, Edilberto, Maria Lucia kamache \u2013 todos embalados pelo mesmo sonho: \u201cA educa\u00e7\u00e3o para todos, p\u00fablica, laica e de qualidade. Ao seu lado, como amparo, cr\u00edtico e amigo, teria a presen\u00e7a de Paulo S\u00e9rgio Duarte, mais um filho muito amado.<\/p>\n<p>\n  Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. Para Yedda tenho apenas uma lembran\u00e7a, um t\u00edtulo de Pablo Neruda: \u201cconfesso que vivi\u201d!\n <\/p>\n<\/p>\n<p>\n Isto \u00e9 um pouco de Maria Yedda, s\u00f3 um pouco, porque t\u00e3o poucas pessoas conseguiram em uma s\u00f3 vida viver tanto. Hoje n\u00e3o estou triste, n\u00e3o quero estar triste. 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