Duas criações de Samuel Beckett na interpretação de Sérgio Britto

No palco do Oi Futuro, Sérgio encena Ato sem Palavras 1 (inédito no Rio) e A Última Gravação de Krapp (escrito há exatamente 50 anos e que teve apenas uma montagem na cidade)

A direção é da atriz e especialista em Beckett Isabel Cavalcanti

Sérgio Britto sobe ao palco do Oi Futuro, dia 1º de agosto, para a estréia de uma temporada que é um verdadeiro tour-de-force: encena, sob a direção de Isabel Cavalcanti, duas peças curtas de um dos maiores dramaturgos do Ocidente: Samuel Beckett. Um deles – Ato Sem Palavras 1 – jamais montado nos palcos cariocas. O outro, A Última Gravação de Krapp, teve apenas uma encenação no Rio (há quase 20 anos) e sua criação está completando redondos 50 anos. Cada peça tem aproximadamente 20 minutos e as duas serão encenadas no mesmo programa, sem intervalo.

Estes dois textos dramáticos de Beckett ganham a interpretação de Sergio Britto em um esplendoroso momento de sua experiência: ele acaba de completar 85 anos.

Ato Sem Palavras 1

Ato Sem Palavras 1, criado em 1956 para o ator e dançarino Deryk Mendel (um mimodrama, lembra Isabel), vai percorrendo a gama desejos – frustrados – de alcançar conforto e alimento (um homem no deserto persegue em vão a sombra de uma árvore e água). As rubricas vigorosas foram minimamente adaptadas por Isabel Cavalcanti: “O próprio Beckett fez várias revisões do texto, e a última versão é de 1975. Estou trabalhando com as duas versões: a primeira e a última”, conta a diretora.

Ato Sem Palavras deriva do interesse de Beckett nos comediantes do cinema mudo: Buster Keaton (para quem ele escreveu um roteiro de cinema), Ben Turpin e Harry Langdon, mas também reflete leituras sobre psicologia behaviorista que o autor fez na década de 30 (particularmente o livro A Mentalidade dos Macacos, de Wolfgang Köhler, sobre uma colônia de macacos, onde experimentos eram conduzidos e os macacos colocavam um cubo sobre o outro para alcançar uma banana) A personagem do drama de Beckett demonstra mais ingenuidade que os macacos, e, diferentemente destes, nunca alcança seu objetivo. A peça mescla sarcasmo e compaixão por nossa frágil e cômica condição humana.

A Última Gravação de Krapp

A citação é clara - crap, em inglês, é "merda". Em cena, um velho que passa em revista sua vida. Mas A Última Gravação de Krapp, escrita há cinqüenta anos exatos para o ator Patrick Magee, é, segundo Isabel, “a peça mais nostálgica, lírica e auto-biográfica de Samuel Beckett”. O velho Krapp, escritor, grava os acontecimentos mais marcantes do ano que passou e escuta passagens de anos anteriores, hábito cumprido por ele em todos os seus aniversários. Aparecem, nos relatos de Krapp, inúmeras personagens e fatos da biografia de Beckett como a morte da mãe, amores passados e uma "revelação" artística. Neste monólogo, Beckett testa os efeitos cênicos de uma invenção tecnológica recente na época: o gravador de rolo - objeto que, no palco, torna-se uma extensão da própria personagem. Ao passar em revista suas memórias, Krapp manipula o gravador e edita as próprias recordações.

A encenação de A Última Gravação, peça que fala de escuta, memória, recupera a poesia do gravador de rolo – este objeto obsoleto em tempos acelerados de avanço tecnológico. “A peça também pode ser entendida como uma releitura de Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, um dos autores franceses preferidos de Beckett”, finaliza Isabel.

Data:
até 28 de setembro (sexta à domingo)

Horário:
19h30

Ingresso:
R$ 15

Local:
Oi Futuro

Endereço:
Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo

Informações:
Tel.: 3131-3060