Encontro promovido pelo Sinpro reuniu especialistas durante três dias - Folha Dirigida (30/06/06)

Ao analisar a importância de cuidar da saúde do professor, a doutora em Psicologia Social e coordenadora do departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Sandra Korman Dib, fez a seguinte declaração: "Quando um professor adoece, a Educação adoece e o futuro também. A educação implica a idéia de um futuro qualquer que seja, mas não a idéia de um futuro qualquer".

Uma das palestrantes do seminário promovido pelo Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro, Sandra Korman Dib, destacou as causas que podem levar os professores à Síndrome de Burnout, um dos temas mais em foco nos últimos tempos, quando se fala da saúde do professorado.

"Uma das características da doença é que ela é vivida de forma individualizada, e o doente é sempre o último a notar sua presença", comentou a professora. Segundo ela, professores e médicos são as profissões com grandes registros da síndrome. "Isso ocorre com eles devido ao produto do seu trabalho, no qual seu fazer produtivo, ser de difícil avaliação, ser diluído. No ciclo produtivo deles há variáveis que eles não podem controlar", alegou Sandra.

Na visão da especialista, colabora para a incidência do mal, o êxito profissional dos docentes não ser reconhecido. "Soma-se a isso o próprio lugar do professor na sociedade. Em um momento em que a importância do ensino já não é mais tão certa para a inserção social, vivemos uma total quebra de linearidade. Atualmente, após terminar os estudos, encara-se o mercado de trabalho ainda com incertezas", afirma Sandra, que acredita que quando o antigo aluno obtém sucesso profissional, raras vezes consegue vincular isso aos professores que o ensinaram.

Ainda de acordo com Sandra Korman, a questão salarial é decorrente desse processo. "Os professores também vivem sobre a constante pressão da necessidade de aprimoramento e há sobre eles grandes expectativas", comenta ela, que aponta que em virtude dessas e outras características, o profissional começa a ter pensamentos de perseguição. "A doença surge também devido às altas demandas em contraponto aos baixos recursos disponíveis, e ao fato do ensino atualmente transitar entre os modelos vitoriano e das novas tecnologias. Tudo isso, com o professor pensando-se como um profissional sem reconhecimento", argumenta.

Novela - A consultora da novela "Caminho das Índias", de Glória Perez, na rede Globo, Giovana Manfredi, falou sobre a construção da personagem "Berê", uma professora que já sofre bastante os problemas do cotidiano das salas de aula. "Recebemos muitas cartas de pais falando que a posição da professora não é da forma como mostramos, e muitos professores nos escrevem dizendo que é exatamente assim. Nossa pesquisa de campo foram salas de aula do Rio de Janeiro e São Paulo, queríamos mostrar a realidade de se lidar com um aluno bad boy, como o Zeca", comentou a Giovana.

Seminário debate as condições de trabalho

Para esclarecer e orientar a categoria sobre as condições de trabalho e saúde do professor, o Sinpro-Rio realizou um seminário sobre o tema, com o objetivo de convocar os docentes à reflexão e à luta por melhores condições de trabalho.

Durante três dias, de 25 a 27 de junho, foram abordados os temas "A cultura da Violência: a sociedade e a escola com medo", que foi o foco do dia 25. No dia 26, a sexta-feira, foi a vez dos professores pensarem sobre o tema "Trabalho, Educação e Parlamento: o trabalho docente e os movimentos políticos-sociais"; e, no último dia, 27 de junho, os presentes foram convidados a refletir sobre a saúde do professor: os principais problemas e estratégias de luta".

Para o presidente do sindicato, Wanderley Quêdo, esta iniciativa encerra a primeira etapa da campanha "Condições de Trabalho e Saúde do Professor". "Ela vai durar todo o mandato dessa diretoria. Na nossa categoria, ela diz respeito à precarização do local de trabalho. Queremos sensibilizar a sociedade e despertar o professor para o entorno de seu ambiente. Não são comuns agressões e assédio no ambiente de trabalho e ele deve lutar contra isso", alertou o sindicalista, completando que considera uma obrigação de qualquer sindicato orientar sobre estes temas.

Ele lembrou ainda que o sindicato está agindo para que sejam atendidos os pedidos da categoria. "No dia 26 de junho, o vereador Reimont participou do evento e se comprometeu a encaminhar a questão do calendário único, uma reivindicação nossa, que pretende unificar as datas nas redes pública e privada de ensino no Rio de Janeiro", afirmou. Segundo o presidente, o calendário único é importante para que o professor consiga ter férias, já que, em virtude do seu salário, é obrigado a trabalhar em mais de uma escola, muitas vezes em mais de uma rede de ensino, o que faz com que tenha calendários diferenciados em cada uma delas. "Cada rede possui o ano letivo começando e com recessos nas datas que querem. Os professores acabam ficando sem férias o ano inteiro, o aluno está em casa, mas o professor não", contou Quêdo.

O evento contou com diversos palestrantes: a doutora em Educação da PUC-Rio, Rose Reis; o coordenador do Núcleo de estudos transdisciplinares de Comunicação e Consciência da UFRJ, Evandro Vieira Ouriques; a advogada do Sinpro-Rio, Rita Cortez; o vereador do Rio de Janeiro, Reimont; a juíza do trabalho substituta, Cláudia Márcia; o secretário-geral da CNTE, Denílson Bento da Costa; a jornalista e consultora da novela "Caminho das Índias", Giovana Manfredi; o advogado e presidente da comissão de Direito do Consumidor da OAB/RJ, Jorge Esposito e a doutora em Psicologia Social, Sandra Korman Dib.

As dificuldades do Professor

Os professores falaram sobre as principais dificuldades da sua profissão. Entre eles, o excesso de papéis, a indisciplina dos alunos e o salário.

Vera Câmara, professora há 33 anos de Matemática, nos ensinos médio e superior:

"Os baixos salários e a falta de pagamento em dia, porque as contas não esperam, eu apontaria como os principais problemas. O atraso dos assalariados é muito ruim. Pela visão que tenho, de fora para dentro das escolas, os professores passaram a ser um todo que nós não éramos, temos que educar e de fazer tudo que antigamente não eramos obrigados. Até fazíamos, mas não por obrigação. Atualmente, também vejo muitos alunos questionando os motivos de aprenderem alguma coisa, já que irão trabalhar no escritório do pai. É uma situação difícil. Eu mesma já tive vários alunos como o Zeca, da professora Berê, na ficção. Mas, na época, eu tinha o apoio do colégio. Hoje em dia, o Zeca fica na escola e quem sai é a professora."

Otávio Ferreira Filho leciona Física há mais de 30 anos para a primeira série do ensino médio:

"Atualmente não trabalho em escolas particulares, mas foi o local onde encontrei maior dificuldade para atuar, especialmente com relação à indisciplina. Com relação ao que se mostra na novela, isso sempre existiu. Na década de 80, quis colocar um aluno para fora de sala e ele quase me agrediu. Onde estou atualmente, no Pedro II, nunca tive um problema dessa natureza. Penso que é uma deficiência que pode vir de casa, da educação familiar, mas também acredito que 60% é culpa da escola, de colocar para gerir escolas pessoas que não passaram pelas salas de aula, que acham que vão resolver problemas de indisciplina só usando a teoria"

Ana Lúcia Holanda leciona há 26 anos para a educação infantil e fundamental:

"A dificuldade maior é financeira. Sou pós-graduada, invisto muito em perfeiçoamento e o retorno é muito pouco. A gente trabalha muito, embora adore a minha área, mas tem que gostar muito mesmo, porque o que a gente recebe não a contrapartida do nosso envolvimento com o trabalho. A vida do docente é função do seu trabalho. Não é nem querer ganhar muito, mas sim para poder se pagar. O piso é de R$800, aproxidamente, se eu quiser fazer um curso, não posso, pois não tenho como pagar. Acredito que magistério é mesmo vocação. Ele é muito acomedido pela Síndrome de Burnout, porque o professor se compromete muito com o que faz. Isso causa uma série de cobranças em nós."