Pit-alunos levam professores a procurar divã - Jornal O Globo (29/03/09)
Um espécime de jovem que era encontrado com mais facilidade em boates agora tem sido cada vez mais observado dentro das salas de aulas de escolas particulares cariocas: o pit-aluno.
Como seus colegas pitboys, ele provoca quem estiver pela frente e não respeita sequer a autoridade dos professores. O estresse dos mestres, obrigados a passar o conteúdo das disciplinas e, de quebra, a enfrentar a falta de limites dessa turma, vai parar agora nos consultórios. O Sindicato dos Professores do Município do Rio fará um convênio com 40 psicólogos para que eles, a partir do segundo semestre, atendam professores à beira de um ataque de nervos, cobrando valores simbólicos.
- As histórias de agressões praticadas por alunos são muitas.
Mas os professores da rede privada ficam acuados, temem perder o emprego quando reclamam. A maior parte das escolas tenta contemporizar.
Isso só piora a situação do professor. Casos de depressão são cada vez mais frequentes - diz o presidente do sindicato, Wanderley Quêdo.
Ele calcula que 15% dos 40 mil professores que atuam nas escolas particulares do Rio sofram da síndrome de Burnout, que se caracteriza por quadro depressivo e de irritabilidade. Em casos mais graves, os mestres passam a evitar até contato visual com os jovens. A professora X., há 30 anos no magistério, é um exemplo de quem passou por maus bocados - e de que os pit-alunos não se limitam ao ensino médio. Uma de suas alunas, que cursa direito numa universidade particular, discordou do número de faltas aplicadas.
Questionada, a professora mostrou os dias em que a jovem havia estado ausente. Inconformada, a aluna abordou a professora na rua e passou a agredi-la com socos e pontapés: - O pior é que a universidade não fez nada, apenas transferiu a aluna para outro campus.
X. diz que colegas passam por problemas semelhantes, mas, como ela, têm medo de se identificar e perder o emprego: - Um professor do curso de direito foi procurado por um aluno que contou ser policial militar reformado por problemas psiquiátricos. O aluno começou a dizer que precisava de nota 6 para passar e que estava com vontade de matar alguém naquele dia. O professor nem titubeou. Falou "toma um 8 e não se fala mais nisso".
A professora Y., que dá aulas numa escola particular na Zona Sul, começou a perceber que objetos estavam sumindo na sala de aula. Resolveu conversar com a turma e ensinou que não se mexia na propriedade alheia. No dia seguinte, conheceu uma pitmãe. A mulher a acusava de ter chamado seu filho de 9 anos de ladrão e ameaçou "arrebentar a cara da professora".
Qualquer semelhança com a novela das oito não é mera coincidência. Em "Caminho das Índias", Glória Perez criou Zeca, um rapaz de classe média que apronta com a professora e sempre escapa de punição, graças à conivência dos pais.
- Os pais normalmente têm dificuldades para enxergar os erros dos seus filhos. Nas escolas particulares, a situação é ainda mais complicada porque muitas vezes a violência é simbólica.
Existe a professora que tem a bolsa revirada, a aula que é filmada e exibida no You Tube, com um áudio ridicularizando o professor - diz Wanderley.
|