Quando o corpo reflete as mazelas dos professores - Suplemento do Professor - Folha Dirigida - (12/09/06)

“As pessoas olham o professor como aquele profissional que ganha mal, que é explorado e não tem tempo de atualização. E ele, como alguém que participa da sociedade, realimenta essa imagem e também passa a se ver como vítima do sistema. Isso vai naturalizando essa condição e diminuindo sua força de luta” Hilda Alevato

Desinteresse dos alunos, indisciplina, fal ta de apoio da família, incerteza de valo res e saberes, velocidade do mundo moderno, sobrecarga de trabalho, baixos salários. Esses são problemas freqüentes no cotidiano de milhares de professores no Brasil e que, gradativamente, vão minando sua auto-estima e sua saúde.

Diante desse cenário, doenças osteomoleculares, problemas mentais e de comportamento, seguidos de complicações cardiovasculares, lideram a lista dos doenças do magistério, que cresce a cada ano. Porém, no lugar de atacar os sintomas, Hilda Alevato, professora titular do mestrado em Ciências Pedagógicas do Instituto Superior de Estudos Pedagógicos (Isep) do Rio de Janeiro e professora convidada do mestrado em sistemas de Gestão da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF), sugere uma co mpreensão das causas, propondo uma mudança de paradigma na análise das doenças do magistério.

Embora reconheça a precariedade das condições de trabalho, os baixos salários dos docentes e o descumprimento da legislação trabalhista, Hilda Alevato foca seu discurso numa mudança de postura do professor diante de suas dificuldades cotidianas. Um dos golpes que atingiram o magistério nas últimas décadas foi a desvalorização de sua auto-imagem, de sua representação social.

“As pessoas olham o professor como aquele profissional que ganha mal, que é explorado e não tem tempo de atualização. E ele, como alguém que participa da sociedade, realimenta essa imagem e também passa a se ver como vítima do sistema. Com isso, vai naturalizando essa condição e diminuindo sua força de luta. Ele se sente muito fraco e pára de acreditar que seja capaz de vencer aquilo que o incomoda”, explica a professora, que também atuou durante 21 anos na educação básica.

Em trabalhos recentes, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) registraram que, a cada ano, dois milhões de pessoas morrem, 200 milhões ficam doentes e 270 milhões sofrem acidentes no trabalho. A América Latina, por exemplo, gasta 76 bilhões de dólares, por ano, com doenças do trabalho. No Brasil, a cifra chega a 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Em sua pesquisa “Cotidiano das escolas públicas do ensino fundamental e sua relação com os índices de burnout entre os profissionais de educação”, a professora do Isep constatou que a Síndrome de Burnot afeta 48% dos docentes no Brasil. Em algumas regiões do Rio de Janeiro, 80% da categoria é acometida pela síndrome que, segundo Hilda Alevato, não é uma doença, mas sim uma ameaça à saúde, grave, sintomática, que inspira cuidados médicos e psicológicos.

Em seu trabalho “Estresse, burnout e cotidiano escolar: novos desafios para a Educação Básica”, a pesquisadora define a Síndrome de Burnout como um estado de sofrimento psicológico resultante do trabalho, especialmente naquelas profissões que implicam relações afetivas. O que caracteriza o processo de adoecimento é a permanência do estado de sofrimento. Aos poucos, o sujeito vai vivendo uma necessidade de isolamento social, de distanciamento das situações a seu redor, ignorando as falhas de seu próprio agir.

“Os fracassos, superdimensionados, seriam sempre determinados por um poder maior, por uma culpa difusa ou localizada em alguém, mas que ninguém, nem nada poderia transformar. A figura da tartaruga é uma metáfora para representar esse sujeito que sofre. Quem o vê, depara-se com um ser vivo pesado, pouco ágil, que vive refém de uma espécie de proteção inseparável, uma grossa casca da qual não pode livra-se. Por dentro esconde-se um ser mole, frágil”, argumenta.

Um fato que agrava os sintomas e explica os índices tão altos da Síndrome de Burnout é a contaminação do ambiente de trabalho. Desse modo, o desinteresse se estende para outros colegas, carregando o ambiente de trabalho. “O profissional vai contaminando seu humor, a sua relação com as pessoas vai ficando mal conduzida, e ele também passa a ser um agravamento da situação de trabalho do seus colegas, assim como os colegas o são ao professor”, esclarece a docente.

De acordo com Hilda Alevato, trata-se de um processo que se desenvolve com diferentes variáveis simultaneamente e acaba repercutindo nos alunos, na qualidade de ensino. “Quando o menino chega à escola e o porteiro fala: você só veio aqui brincar, porque não ficou em casa. O porteiro está informando ao menino que a escola não é o seu lugar. O porteiro, o bibliotecário, o professor, todos formam um conjunto que interage com os alunos, que percebem o quanto as pessoas querem ou não estar ali. Ninguém nasce odiando a escola. É ela que ensina a gostar ou a não gostar de estudar”, explica a educadora.

Transformações de dentro para fora

Um dos principais fatores que levam ao estresse e ao desinteresse é a falta de organização do trabalho. Nas escolas, isso se reflete em didáticas inadequadas, trabalho sem intervalos regulares, baixos salários, imposição de métodos nos quais o profissional não acredita. Tal quadro, somado ao lazer insuficiente e à impotência diante de problemas sociais e culturais se transforma, aos poucos, em envolvimento negativo com o trabalho e despersonalização, o que interfere na saúde.

A saída, no entanto, está na organização dos trabalhadores, afirma a professora da UFF. Para tanto, seria necessário uma mudança de paradigma, de postura. 'Durante muitos anos, os profissionais de educação foram levados a reduzir suas lutas à questão mera mente salarial. Precisamos começar a perceber melhor esses focos. A questão da saúde hoje no trabalho é um novo paradigma. A voz, a coluna, o sistema cardiovascular, todas essas causas de afastamento do trabalho têm por trás quadros de depressão, sofrimento psíquico do trabalho. O estresse é hoje, segundo a OMS e a OIT, a variável mais importante no adoecimento, na morte e nos acidentes de trabalho” salienta Hilda Alevato.

Nesse sentido, a professora do Isep prega que uma das linhas de atuação seria a implementação de mudanças nos cursos de formação de professores, onde questões como características do comportamento humano, agrupalidade e organização do trabalho integrariam o currículo. “Ainda não conseguimos que essa formação agregue todas as transformações que a sociedade viveu e que acabam implicando em um profissional formado não mais para se preocupar apenas com a questão dos conteúdos, mas também com as normas de saúde e segurança”, completa a docente.

Como alternativa para mudar essa situação, Hilda Alevato sugere a ressignificação da própria vida do docente, de sua experiência profissional, numa tentativa de impedir a banalização do sofrimento. “É preciso buscar a si mesmo nesse cenário de vida, valorizar-se, não permitir-se viver determinadas situações. Tudo isso concorre para que o professor tenha mais força, potência para se unir aos colegas e tentar uma saída que só é possível no coletivo. Esse coletivo depende do quanto cada um de nós está conformado com sua própria situação ou está disposto a ter uma condição melhor”, defende a educadora. Diante dessa perspectiva, a luta sindical, na visão de Hilda Alevato, deve ser redimensionada no século XXI. ?A luta do professor precisa ser de comprometimento com a sociedade que queremos construir.

“O professor precisa saber a importância de seu papel. É o comprometimento com esse tipo de valor que alimenta a necessidade de cuidar-se bem, de estar bem para que se tenha energia para caminhar nessa direção. As coisas não se transformam pelas forças externas. A sociedade se transforma a partir da união dos seus grupos, da luta das pessoas”, completa a professora.