A literatura no imaginário dos trabalhadores - Folha Dirigida (11/11/08)

O Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (Sinpro-Rio), através da Escola do Professor, realizou nos últimos dias 7 e 8 de novembro, sexta e sábado, na Academia Brasileira de Letras (ABL) o seminário "Os Trabalhadores na Literatura Brasileira". O evento teve como objetivo discutir a contribuição da literatura para construção do imaginário nacional dos trabalhadores.

O seminário reuniu educadores e escritores no Teatro Raimundo Magalhães Jr, na ABL. Foram realizadas três mesas de debate, uma na sexta-feira, e duas no sábado (manhã e tarde), sob os temas "Trabalho, Sociedade, Imaginário", mediada por Italo Moriconi, professor, escritor e diretor da Editora da Uerj; "Trabalho, Resistência, Existência", mediada por Tania Clemente, doutora em Lingüística pela UFRJ; e "Trabalhadores, Literatura, História", também mediada por Italo Moriconi.

Na abertura do evento, foram proferidas duas palestras, por Moacyr Scliar, médico, professor universitário, escritor e membro da ABL, e Ana Miranda, poeta e romancista. O acadêmico tratou do engajamento social na literatura brasileira, que desde muito cedo passou a refletir as desigualdades e a injustiça que caracterizam a história do país. Moacyr Scliar focou seu discurso em assuntos como a luta abolicionista, a luta contra a exploração, e a luta contra a ditadura, ressaltando momentos e autores que assumiram essas causas.

Já a poeta Ana Miranda buscou tratar o lado mais feminino e subjetivo do trabalho, como ela mesma caracterizou. A poeta fez algumas leituras de grandes escritores como Baudrillard, e falou do trabalho como forma de prazer, criação, e construção de um ser, ressaltando a oscilação entre o prazer e o fardo do trabalho. "O trabalho constrói toda a literatura humana, o modo de viver, de conviver. Ele é uma referência à libertação, ao encontro do amanhã. O trabalho está presente em tudo", afirmou Ana Miranda. Segundo a romancista, o trabalho literário é muito mais antigo do que possamos imaginar. "Os primeiros trabalhos de literatura já estão na Bíblia, os Gênesis", apontou a poeta, que recapitulou os seis dias de trabalho divinos na construção do mundo, e constantemente fazia alusões ao trabalho, em diferentes escalas.

Literatura Social: engajamento e crítica

O professor e acadêmico Moacyr Scliar falou sobre alguns escritores que, em diferentes momentos da história, demonstraram, explicitamente ou não, a preocupação com a sociedade em que se vivia.

O baiano Jorge Amado, filiado ao Partido Comunista, explorava a questão da luta de classes, e do duelo entre o burguês e o proletariado. Segundo Moacyr Scliar, Jorge Amado defendia claramente a posição do partido ao qual pertencia. "Os partidos liam e sugeriam como deveria terminar o livro, por exemplo. E era comum artistas e intelectuais aceitarem isso", explicou o acadêmico. De acordo com Moacyr Scliar, os autores engajados da época rejeitavam o surrealismo e o "abstrato" em prol de propostas mais diretas e propagandistas.

Já Graciliano Ramos, segundo o membro da ABL, descrevia a problemática do Nordeste, dos pobres e explorados. No entanto, não era adepto a uma postura propagandista como a de Jorge Amado. "Havia também, claro, militantes não ligados a partidos, como Érico Veríssimo", ressalva Moacyr Scliar.

Mas o Golpe de 64 fez surgir uma nova geração de escritores militantes, da qual Moacyr Scliar considera fazer parte. "Meu primeiro livro foi publicado em 68, no ano do Ato Institucional 5 (AI5). Naquela época enfrentávamos a censura, o autoritarismo. A literatura não era engajada, como na primeira fase de Jorge Amado", relatou. Segundo o professor, os escritores eram perseguidos freqüentemente, e viam na metáfora a melhor maneira de driblar a censura. Tendo como guru o escritor colombiano Gabriel García Márquez, os escritores dessa geração "narravam coisas absurdas como se estivessem acontecendo de verdade". "Tínhamos a sensação de que havíamos sido engolidos, e nunca mais veríamos a luz do sol. Em um dos meus contos, eu sugeri a idéia de que eles poderiam nos engolir, mas que continuaríamos gritando de dentro da barriga deles", comentou Moacyr Scliar.