Enem 2007 - Sobram razões para o fraco desempenho das escolas estaduais - Folha Dirigida (10/04/08)
Alessandra Moura Bizoni
No ranking do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) das escolas do município do Rio de Janeiro, dentre um total de 444 instituições de ensino, 197 unidades das 200 piores colocadas pertencem à rede estadual de ensino. Sob a análise de especialistas do setor educacional, os dados revelam a ponta de um "iceberg", formado pela complexidade da realidade socioeconômica do país, que ganha uma coloração mais forte nos grandes centros urbanos.
Para integrantes do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro (CEE/RJ), os dados do Enem indicam a existência de problemas, mas não especificam linhas de ação para mudança do cenário. Presidente do colegiado, Roberto Boclin afirma que o desempenho das escolas estaduais na avaliação do Ministério da Educação (MEC) não envolve apenas aspectos relativos ao processo educacional, mas revela questões de ordem social e econômica.
"Acredito que a avaliação do Enem tem um caráter geral, que envolve critérios objetivos e subjetivos, como a redação, que equivale a 50% da nota. Nesta avaliação global, as condições socioeconômicas influenciam os resultados. As condições de habitação, alimentação, saúde e a estrutura da família afetam o desempenho. Por isso, as elites têm melhores resultados do que alunos mais carentes. A clientela da escola pública, em alguns casos, é diferenciada. Escolas públicas como os Colégios de Aplicação, por exemplo, têm excelentes notas", explicou Boclin.
Para o presidente do CEE/RJ, a diversidade de público da rede pública, que atende a todos, explica a colocação de estados importantes, como Rio de Janeiro (8º lugar/média de 54,836), e São Paulo (10º lugar/média de 54,119). "Nos grandes centros urbanos, a pedagogia tem que lidar com a diversidade da clientela. O Enem deve ser estudado em procedimentos mais locais. A mesma diversidade que existe no Rio de Janeiro existe em São Paulo. O resultado do Enem nos diz que há muita coisa errada, mas não aponta onde estão os problemas", avaliou o educador.
Comparação está repleta de equívocos
A forma como a avaliação é realizada e divulgada foi criticada por Marco Antônio Lucidi, reitor do Centro Universitário da Zona Oeste (Uezo). Para o educador, escolas com um número menor de alunos têm chance de obter uma média maior. "Não se pode comparar o desempenho de escolas como o Mopi (Moderna Organização Pedagógica Integrada), que tem menos de 15 anos em uma única turma de terceira série do ensino médio, com o Colégio Pedro II, que tem várias unidades e atende a um número bem maior de alunos. O mesmo acontece com as escolas da rede estadual de ensino, onde todas as mazelas da sociedade surgem de forma ampliada", argumentou o reitor da Uezo.
Ex-reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o conselheiro Nival Nunes argumenta que o interesse entre alunos da rede estadual em participar do Enem é recente e ocorre em função de programas como o Prouni (Programa Universidade para Todos), por exemplo. Na rede particular, avalia o educador, a participação no Enem acontece há mais tempo, uma vez que seu resultado é aceito em muitos vestibulares.
Contudo, Nival Nunes aponta dificuldades estruturais na rede pública que contribuem para o fraco desempenho das escolas estaduais. "A rede pública sofre com as greves, a falta crônica de professores, os baixos salários e concursos públicos insuficientes. Há uma falta crônica de docentes de disciplinas como Matemática e Química, por exemplo, o que prejudica o ensino. Colégios que se saíram bem na avaliação, como o Mopi, têm apenas 14 alunos na última série do ensino médio. O Colégio de São Bento oferece ensino integral. São oito horas de ensino por dia. Já nos Colégios de Aplicação da rede pública, onde há um número reduzido de alunos, por exemplo, o desempenho foi bom", ponderou o ex-reitor da Uerj.
Baixo desempenho deve gerar debate
Ao levantar o debate sobre o Enem, na sessão plenária de nº 1.367, realizada na última terça, dia 8, o conselheiro Francílio Pinto Paes Leme sugeriu que o Conselho realize um debate sobre os resultados do Enem. "Nós do Conselho não podemos passar à deriva desse fato, principalmente quando as manchetes dos jornais estampam o desempenho das escolas da rede estadual. Precisamos pautar uma discussão sobre os resultados do Enem para a educação fluminense e para a educação brasileira", ponderou o presidente do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro (Sinpro-Rio).
Nesse sentido, o professor questionou a pertinência do Enem como instrumento de avaliação e o uso feito dos dados divulgados pelos meios de comunicação. "As manchetes nos diziam que o desempenho do Pedro II caiu. A média do Pedro II foi de 74,67, numa prova que vale 100,00. Será que uma escola com essa média está em crise? O Enem serve como instrumento de avaliação ou não serve?", ponderou Francílio.
Vice-presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Município do Rio de Janeiro (Sinepe-Rio), José Carlos Portugal acredita que os dados do Enem indicam a necessidade de mudanças na rede pública de ensino. "Os resultados indicam que a escola pública precisa fortalecer seus mecanismos de aprendizado, fazendo com que a ‘pedagogia da sineta’ se faça presente. Toda vez que a sineta toca, a sala deve estar limpa, com um professor em sala e com uma matéria sendo dada aos estudantes. Nas escolas privadas isso acontece porque elas precisam atender a esses requisitos e metas para sobreviver", completou Portugal.
Diálogo e cooperação entre público e privado
Já o conselheiro Carlos Dias acredita que deve haver um diálogo entre as redes pública e particular e experiências de casos de sucesso, como o do Colégio de São Bento, podem ser estudados. Segundo Carlos Dias, é preciso atentar não somente para aspectos como o conteúdo das disciplinas, mas também para a importância da formação humana.
"Os debates na rede pública têm se tornado ideológicos e a educação vem sendo deixa de lado. As lideranças públicas precisam dialogar com as da rede privada, para analisar aspectos pedagógicos e de relação com a família dos estudantes, por exemplo. O ensino é de massa, mas é preciso atender as individualidades de cada aluno. O Colégio de São Bento, por exemplo, tem uma tradição no cenário educacional que precisa ser avaliada, não apenas em sua estrutura, mas em seu conjunto de valores", ponderou o conselheiro, salientando a importância da escola fornecer não apenas a instrução, mas também a formação humana.
Representante da União dos Professores Públicos no Estado do Rio de Janeiro (Uppe-Sindicato) no CEE/RJ, Amerisa Rezende destaca a dedicação dos profissionais de ensino na rede estadual e sugere a integração das ações públicas para melhoria da qualidade de ensino. "O professor das escolas estaduais trabalha com todo esforço e com todo o sacrifício, sem nenhum apoio. E se a educação pública ainda anda é devido a ele. Acredito que falta uma integração entre as políticas públicas no setor educacional para que haja em efetivo apoio às escolas", concluiu a sindicalista.
Questionada sobre o desempenho das escolas da rede estadual no Enem, a Secretaria Estadual de Educação (SEE) informou que formou uma Comissão, integrada por pedagogos. Estes profissionais já trabalham no mapeamento e na análise dos dados da avaliação do MEC para que possa ser feito um diagnóstico preciso da realidade das escolas. Contudo, ainda não há previsão para a divulgação deste relatório.
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