Professor demitido diz que não recorrerá à Justiça (O Globo) - (07/10/08)

A demissão do poeta e professor de literatura Oswaldo Martins Teixeira pela Escola Parque sinaliza, na opinião de especialistas, que a sexualidade ainda é tratada como um tabu por muitos pais e escolas, que evitam discutir a questão com a juventude. Oswaldo foi demitido no último dia 11 de setembro, a pedido de um grupo de pais, que consideraram os livros, sugeridos pelo professor, inadequados para o 7º e o 8º ano do ensino fundamental , e porque ele já teria escrito poesias eróticas, que acabaram descobertas por alguns alunos. O escritor disse que não pretende entrar na Justiça contra a escola.

De acordo com a psicopedagoga Fatima Fontenelle, muitos pais ainda se sentem desconfortáveis com o assunto e preferem a alienação a debatê-lo abertamente:

- A figura desse professor simbolizava para esses pais o que deveria ser proibido, por causa das poesias que ele escrevia. O imaginário de sua obra literária era perturbador. Fico chocada como a sociedade ainda trata a sexualidade como um tabu, e como os nossos adolescentes estão desinformados - afirma ela.

A dificuldade de tratar o assunto, na opinião do sexólogo Marcos Ribeiro, se deve ao constrangimento que as pessoas ainda sentem ao falar sobre o que lhes dá desejo, sobre o corpo. Ele esclarece que é preciso encarar a sexualidade dos adolescentes como algo real, e não fingir que ela não existe.

- Eles têm desejos, sim, são curiosos, sim. A melhor forma de lidar com isso, na escola e em casa, é encarar com a maior naturalidade e informações possíveis. Não é demitindo alguém que estaremos educando. Os alunos precisam desenvolver o senso-crítico, saber o que está certo e errado - defende ele que é coordenador-geral do Centro de Orientação e Educação Sexual (Cores) e consultor para o Programa Nacional de DST/Aids, do ministério da Saúde.

Ribeiro, que é autor do livro "Adolescente: um bate-papo sobre sexo", esclarece que não existe uma idade ideal para começar a debater o assunto em casa ou no colégio. No momento em que surgem as primeiras perguntas, devem também aparecer as primeiras respostas, simplifica ele.

- Claro que essas respostas precisam ser adequadas à idade. Com o passar do tempo, o tema vai sendo aprofundado. Mas nada impede, por exemplo, que a escola desenvolva um programa de educação sexual para crianças de quatro ou cinco anos. O ministério da Saúde, inclusive, tem uma cartilha com informações para o público infantil - conta ele, que apresenta o quadro "Sexo, coisa e tal", aos sábados, na Rádio Globo.

A demissão do professor chocou ainda mais a psicopedagoga Fatima Fontellene por ter partido de uma escola que tem uma proposta educacional de vanguarda:

- Eu me questiono cadê a autoridade dessa escola para bancar sua proposta pedagógica. Será que os alunos devem aprender o que os pais querem ou o que a escola e os professores julgarem conveniente? - questiona ela

Apesar da repercussão e das mensagens de apoio que tem recebido de todo o Brasil em seu blog, Oswaldo afirmou que não vai processar a escola, porque acredita que a escola tem a "liberdade de manifestação". Segundo ele, o mais importante agora é a discussão política iniciada depois que a história de sua demissão veio a público.

O professor esclareceu que foi demitido em função das poesias e não pelas indicações dos livros:

- A escola disse que a figura do poeta não combinava com a figura do professor - esclarece.

O Sindicato dos professores da rede privada do município (Sinpro-Rio) declarou que lamenta muito a decisão tomada pela Escola Parque, e que vai solicitar uma carta de explicação da instituição.

- Sentimos muito pela exposição que este professor vem sofrendo na mídia. Classificamos este episódio como cerceamento político e ideológico. Mas não podemos entrar com nenhuma medida judicial, sem que o pedido do professor. Ele ainda não nos procurou - esclarece o presidente do Sinpro-Rio Wanderley Quêdo.

A Escola Parque declarou, através da sua assessoria de imprensa, que não vai comentar assuntos internos, em público.